O RITUAL DA PLENITUDE POÉTICA

UMA ANÁLISE DA OBRA DE E. T. A. HOFFMANN, A PARTIR DO CONTO "DER GOLDENE TOPF - EIN MÄRCHEN AUS DER NEUESTEN ZEIT" (O POTE DE OURO - UM CONTO DE FADAS ATUAL)

 

Maria Aparecida Barbosa - UFSC

 

 

Em "O Pote de Ouro -um conto de fadas dos dias atuais"[1], do autor alemão E. T. A. Hoffmann (1776-1822), o herói Estudante Anselmo cumpre um ritual de iniciação, passando por uma "transformação ontológica", a partir do seu primeiro contato com o mundo maravilhoso. Ao longo de 12 vigílias, Anselmo distancia-se, gradualmente, da dimensão terrena da vida e ascende ao reino da Atlântida. Personagens de outros contos hoffmannianos, como o jovem artista Kreisler, o anacoreta Serapião e o famoso compositor Ritter Gluck, também perseguem a utopia da Atlântida, que é o final da jornada de todos eles. Será uma referência à criação estética, à alienação ou à loucura?

Comparando os estágios da aventura de Anselmo com as experiências desses protagonistas de outros contos, tentarei circunscrever o possível sentido simbólico da Atlântida. Meu propósito é compreender o significado dessa procura na literatura de Hoffmann.

Iniciarei falando um pouco sobre cada um desses personagens, separadamente.

 

Arte ou Alienação?

 

Assim como Anselmo parece indeciso entre acatar suas aspirações mais sublimes ou abraçar os valores da sociedade de Dresde, também o jovem compositor Johannes Kreisler é outro personagem vulnerável em meio às contradições do mundo hostil. Atormentado por pressentimentos vagos, ele persegue algo desconhecido.

Hoffmann o apresenta da seguinte maneira:

 

A natureza experimentou uma nova receita e a tentativa não vingou, pois juntou ao seu sobreexcitado espírito, à sua chama de fantasia ardente, pouca fleugma, destruindo o equilíbrio que o artista necessita para conviver com o mundo e criar sua obra.[2]

 

O autor sugere a necessidade de um equilíbrio entre a natureza sensível e a "racional", poderíamos dizer. Entretanto, Kreisler está submetido a uma terrível tensão e experimentando a duplicidade que condiciona a existência terrena. Enquanto compõe, desespera-se para apreender um elevado conhecimento (simbólico). Diferente de Serapião, ou de Anselmo na Atlântida, Kreisler está vivendo um conflito, que o leva à indecisão e às hesitações.

Hoffmann atribuía ao músico Kreisler as seis "Kreislerianas", ensaios sobre música, geralmente compostos de breves reflexões e quase sempre publicados pelo autor no Allgemeinen Musikalischen Zeitung (Jornal de Música) e no Zeitung für die elegante Welt (Jornal para o Mundo Elegante). Na 5a Kreisleriana, denominada "Höchst zerstreute Gedanken" (Pensamentos Altamente Dispersos), o "músico" parece vislumbrar e exprimir um lampejo da fonte original:

 

Nem tanto no sonho, mas no estado de delírio que antecede o adormecer, principalmente após ter ouvido muita música, eu encontro uma harmonia de cores, sons e perfumes. Parece-me que tudo foi gerado da mesma forma por um raio de luz e que precisa então se unir num concerto magnífico.[3]

 

Em seus momentos mais inspirados, então, Kreisler penetra numa sinestesia de impressões, cuja descrição parece assemelhar-se à irradiante epifania vivida por Anselmo, ao atingir o reino da Atlântida. Há duas passagens do romance A Visão de Mundo do Gato Murr[4] que talvez possam demonstrar isso melhor.

Na primeira, Kreisler se refere ao sentimento de amor que o músico guarda no coração. Ele fala de um suave segredo, que mantém uma chama ardente, como uma saudade infinda, ou um sentimento que o artista irradiaria como música, pintura, poesia.

Na segunda, o abade afirma que Kreisler é uma dessas pessoas dotadas de espírito nobre, mas que precisam conciliar essa sua feição com a vida terrena, menos elevada. A arte seria a expressão desse espírito sublime.

A dualidade entre o mundo terreno e o reino sensível reaparece na narrativa sobre o Compositor Ritter Gluck[5], autor de uma obra musical e, portanto, alguém que se encontra num estágio bem mais avançado de criação estética. O momento epifânico, onde as sinestesias se harmonizam, surge aqui com uma conotação bastante evidente de fonte de inspiração artística.

Ao tentar explicar como compõe sua música, Gluck refere-se ao portal de marfim, entrada do reino dos sonhos: "poucos conseguem mesmo vê-lo, menos ainda são os que passam por ele!"[6], e chega a sugerir a necessidade de certo domínio, a manifestação de um querer consciente: "só uns poucos alertas pelo sonho se elevam e caminham através do reino dos sonhos -- eles atingem a verdade, o momento supremo, indizível!"[7]

Berlim é, para o Compositor Gluck, um "lugar ermo", no qual ele se sente solitário. Através da arte, contudo, ele inicia um processo de comunicação com o seu meio. A arte surge, aqui, como uma possibilidade de integração idealizada, na vida terrena, sempre em construção, da identidade fragmentada do artista.

Dessa maneira, Hoffmann tenta concretizar, na sua literatura, tal como Novalis, a filosofia de Schelling, que pregava uma busca da concretização da identidade absoluta em sua totalidade mais perfeita e objetiva. Schelling discordava da noção de que a natureza se manifesta em grupos estanques (mineral, vegetal, animal etc.), postulando, ao contrário, a idéia de um grande "organismo". Mas só há vida, segundo o filósofo, onde forças antagônicas conduzem à síntese.[8] "Dualismo" e "polaridade", portanto, constituem conceitos essenciais da sua sua concepção sintética de natureza.[9]

Schelling sugeriu, que o segredo da harmonia entre espírito e natureza poderia ser revelado, quando muito (höchstens), através de uma "intuição genial". Apenas como curiosidade, gostaria de mencionar que Hegel considerou "abrupta" essa forma como Schelling introduziu a visão da identidade "absoluta". Além disso, na polaridade Natur-Geist, de Schelling, Hegel atribuiu maior importância ao espírito, pois considerava o processo total do mundo como o aperfeiçoamento do espírito. A partir da "Filosofia do Sujeito", de Fichte, e da "Filosofia da Identidade", de Schelling, que Hegel chamou respectivamente de "Idealismo Subjetivo" e "Idealismo Objetivo", ele desenvolverá, mais tarde, uma síntese das duas antíteses, que redundará no "Idealismo Absoluto"[10]. Desde então, os dois discursos, o das ciências humanas e o das ciências físicas, passaram a seguir caminhos distintos, ignorando-se um ao outro cada vez mais. Mas, voltemos à filosofia de Schelling, que postulava a arte como um meio de se atingir a visão da identidade.

A obra de arte é, para ele, o "âmbito em que o mundo (Welt) e o eu (Ich), o real e o ideal, a ação consciente e a inconsciente da natureza, surgem em perfeita harmonia"[11]. Ela seria um documento, atestando aquilo que a filosofia não poderia representar concretamente:

 

O que denominamos natureza é um poema cifrado numa escrita secreta e maravilhosa. Se esse enigma fosse solucionado, reconheceríamos nele a odisséia do espírito, que se frustra de forma admirável, à procura de si mesmo, eternamente em fuga. Pois o reino da fantasia ao qual almejamos só pode ser visto pela mente através do mundo dos sentidos, só através das palavras, só através de uma névoa meio transparente.[12]

 

Partindo dessa acepção da obra de arte como símbolo de uma luta pela possibilidade de uma síntese artística das partes isoladas, pergunto-me se Anselmo se tornou mesmo autor de uma obra poética, a partir do momento em que "ascendeu" à região ideal da Atlântida.

O seu estágio de "plenitude poética" e "êxtase", após a iniciação, parece-me comparável ao estado do velho eremita Serapião. Para falar sobre esse último personagem, gostaria de discutir o papel que ele desempenha dentro da obra de Hoffmann, como um todo.

Os contos da coletânea Die Serapionsbrüder (Os Irmãos Serapião)[13] são apresentados como histórias contadas numa roda de amigos - Theodor, Ottmar, Sylvester, Vincenz, Cyprian e Lothar, provavelmente Hoffmann, Julius Eduard Hitzig - biógrafo de Hoffmann, o poeta Karl Wilhelm Salice-Contessa e o médico e escritor David Ferdinand Koreff e talvez, também, Chamisso e Fouqué [14]. Trata-se de um grupo que se reúne semanalmente, num total de oito encontros, a fim de renovar a amizade e divulgar a produção poética de todos eles.

A partir da primeira história, "O Anacoreta Serapião", eles desenvolvem o "serapiontisches Prinzip" (princípio serapiônico), uma espécie de pauta para suas criações. Lothar apresenta a seguinte argumentação, num dos diálogos intermediários:

 

Venero a loucura de Serapião porque só o coração do poeta mais primoroso ou, mais ainda, do autêntico poeta, pode se comover com ele. Eu não queria me referir a algo já antigo e banalizado, de que outrora uma mesma palavra designava poeta e profeta, mas o certo é que, freqüentemente, duvidamos tanto da real existência dos poetas, quanto dos arrebatados profetas que anunciam o milagre de um reino superior! Pois como se explica então que a obra de alguns, cuja forma e elaboração não poderíamos chamar de ruins, não nos diz nada, como uma imagem pálida, esmorecida, onde o esplendor das palavras serve apenas para reproduzir o calafrio que nos perpassa. Em vão o poeta se esforça para nos fazer acreditar naquilo que ele próprio não crê, não pode crer, porque ele não vê. O que podem ser as personagens desse poeta, que também não é um verdadeiro profeta na acepção daquela velha palavra, além de bonecos falsos, penosamente costurados com material desconhecido![15]

 

Na verdade, o grupo de amigos resolve seguir o exemplo do protagonista Serapião, na medida em que "ele era um verdadeiro poeta, tinha visto realmente o que expressava e, por isso, suas palavras comoviam coração e alma"[16]. Lothar observa que a loucura de Serapião consiste em ignorar as contradições inevitáveis da nossa existência. Ele explica que, sem dúvida, a força espiritual é imprescindível, mas o que realmente conduz o indivíduo ao auto-conhecimento é a experiência da vida terrena. Com a percepção exclusivamente voltada para seu mundo interior privado, o eremita Serapião vive num sonho perene do qual "desperta" sem dores, no além.

Talvez essa explicação permita distinguir melhor a afinidade que percebo entre o protagonista Estudante e o Anacoreta. Ambos simbolizam uma proposta de existência sublime, portanto distanciada da vida terrena, que serve de inspiração e modelo: os irmãos Serapião almejam, em suas criações, a autenticidade poética do anacoreta, o narrador de "O Pote de Ouro" aspira "viver na Poesia"[17], como Anselmo.

A resposta a todos esses ansiosos poetas que estão construindo uma obra, talvez esteja nas palavras do Mestre Lindhorst, ao censurar o ceticismo do narrador de "O Pote de Ouro": "Você não esteve ainda há pouco na Atlântida, não possui pelo menos um sítio poético no seu íntimo?"[18]

Diferentemente dos personagens Kreisler e Gluck, que tentam se expressar através da criação artística, eu concluiria que o Estudante e o velho eremita optaram pela negação de um mundo complexo e imperfeito, a fim de atingir um ideal, outra esfera da existência, que não se reduz ao mundo da arte.

Em sua loucura coerente, Serapião esquiva-se da responsabilidade de buscar a inteiração com os semelhantes. Ele parece-me "iluminado" na acepção augustiniana do termo, que se refere à pessoa que, "através da comunicação da luz divina à alma, tornou-se capaz de atingir o conhecimento verdadeiro pela inteligência"[19]. Por outro lado, ele se mantém desinteressado dos sofrimentos e indiferente às questões mundanas.

Serapião vive, portanto, num mundo onírico, ideal. Tendo alcançado o verdadeiro conhecimento e a bem-aventurança, vaga nas ondas da sua própria fantasia, distante da sociedade, diluindo-se incomunicável, ou, como diria Ritter Gluck, ele "perde-se a sonhar no reino dos sonhos"[20].

Após discutir como alguns protagonistas de Hoffmann: o jovem Estudante, o jovem compositor, o compositor maduro e o velho anacoreta, em diferentes estágios de vida, expressaram seu contato com a Atlântida, ou com um "reino dos sonhos", deixo em aberto e apenas sugerido o significado dessa "epifania", que se presta a múltiplas interpretações.

Gostaria, ainda, de lembrar que Baudelaire[21] comparou Hoffmann a um médico de loucos, que se divertia, revestindo sua ciência de formas poéticas, como um sábio que falasse por parábolas. O "comique absolu", que o poeta francês leu no autor alemão, talvez tenha sido o consolo, a saída ante a impossibilidade de vivenciar, neste mundo, a harmonia atlântida.

Acrescentaria, por fim, que a visão do homem fragmentado, que Hoffmann, no início do século XIX, expôs nos contos por mim estudados, ainda traduz, com pertinência, o sentimento do homem de hoje, após "exauridas" as utopias.



[1] “Der Goldene Topf – ein Märchen aus der neuen Zeit”(O Pote deOuro – um conto de fadas dos dias atuais). In: Fantasiestücke in Callots Manier – Blätter aus dem Tagebuch eines reisenden Enthusiasten (Quadros Fantásticos à maneira de Callot – do diário de um viajante entusiasta). In: E. T. A. Hoffmann Werke. Frankfurt am Main: Insel Verlag, 1967. Volume 1, p. 126.

[2] "Kreisleriana". In: op. cit.., p. 20.

[3] Ibid,  p. 46.

[4] A Visão de Mundo do Gato Murr. In: op. cit., volume 3, p. 127.

[5] "Ritter Gluck". In: op. cit., p. 9.

[6] Ibid,  p. 11.

[7] Ibid.

[8] A busca filosófica de uma unidade além da multiplicidade provém, certamente, de Heráclito (550-480 a. C.), que viveu na opulenta cidade grega Éfeso, que abrigava o Templo iônico, considerado uma das sete maravilhas do Mundo Antigo. Para o filósofo grego, todo desenvolvimento acontece a partir da conjunção de forças opostas. A totalidade harmônica do mundo se forma na luta entre idéia e idéia, homem e homem, homem e mulher, classe e classe, povo e povo, sendo que cada coisa prescinde do seu contrário para "ser". O fim das tensões criativas, a paz e o armistício eternos levariam à morte. Não seria bom para o homem satisfazer todos os seus desejos, pois é a doença que torna a saúde agradável, a maldade que destaca a bondade etc. Störig, Hans Joachim: Kleine Weltgeschichte der Philosophie. Frankfurt am Main: Fischer Taschenbuch Verlag, 1979. Volume I. P. 135. O modelo do método dialético criado por Heráclito, a unidade dos contrários, é retomado, dois milênios depois, por Fichte, Schelling, Hegel e pelos marxistas.

[9] Schelling. In: Rehmke, J.: Geschichte der Philosophie, Op. cit., p. 258. Assim, a síntese da atração (tese) e da repulsão (antítese) da matéria (Materie) se apresentaria como "potência": a primeira potência seria o "peso", em seguida, "magnetismo", "eletricidade", "química" e a potência mais elevada da matéria seria "sensibilidade, "irritabilidade" e "reprodução" do organismo.

[10] Störig, Hans Joachim: Kleine Weltgeschichte der Philosophie. Op. cit.. Volume II, p. 127.

[11] Ibid, p. 123.

[12] Ibid.

[13]Die Serapionsbrüder (Os Irmãos Serapião). In: E. T. A. Hoffmann - Sämtliche poetischen Werke. (A Obra Completa de E. T. A. Hoffmann). Berlim-Darmstadt-Wien:. Deutsche Buch-Gemeinschaft, 1963. Volume 2., p. 55.

[14] Meyer, Hans. "Die Wirklichkeit E. T. A. Hoffmanns - ein Versuch". In: E. T. A. Hoffmann Werke. Op. cit., volume 4, p. 563.

[15] Die Serapionsbrüder (Os Irmãos Serapião). In: E.T.A. Hoffmann - Sämtliche poetischen Werke. Op. cit.. Volume 2, p. 55.

[16] Ibid.

[17] "O Pote de Ouro". Op. cit., p. 203.

[18] Ibid, p. 204.

[19] Segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. P. 742. Além disso, conforme o próprio Santo Agostinho: 16. Em seguida, aconselhado a voltar a mim mesmo, recolhi-me ao coração, conduzido por Vós. Pude fazê-lo, porque Vos tornastes meu auxílio. Entrei, e, com aquela vista da minha alma, vi, acima dos meus olhos interiores e acima do meu espírito, a Luz imutável. Esta não era o brilho vulgar que é visível a todo o homem, nem era do mesmo gênero, embora fosse maior. Era como se brilhasse muito mais clara e abrangesse tudo com a sua grandeza. In: Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p. 185.

[20] "Ritter Gluck". Op. cit., p. 13.

[21] Baudelaire, Charles: "L'essence du rire et généralement du comique dans les arts plastiques". In: Oeuvres Complétes de Baudelaire. Bibliothéque de la Pléiade. Edição e notas feitas por Y. G. de Dantec. Paris: Librairie Gallimard, 1954.